
Vamos ao que importa.
Seleção.
Dunga deve estar com os chifres fritando. A dois meses do Mundial, o ataque é um poço de mistério. Luís Fabiano foi cortado do último amistoso por uma contusão cuja gravidade suscitou dúvidas. Gaúcho está afastado; Adriano, numa draga; o Gordo, ignorado; Fred, desabientado. Mais um pouco e Vagner Love ganha uma chance.
No meio, nuvens escuras. A cabeça de área está fisicamente intacta, mesmo assim inspira cuidados. Felipe Melo porque, excessivamente discreto, não exala a mesma confiança de antes. E Gilberto Silva, por favor, é da conta pessoal de Dunga, e em cargo de confiança não se mexe.
Nas meias, socorro!
Pela direita, Ramires e Elano. Ai, ai, ai.
Pela esquerda, Kaká e Júlio Baptista. Se ‘los deuses del futebol’ não estão nos pregando uma surpresa, tudo bem. Mas, se estiverem, então Kaká foi reduzido a pó. Pubalgia. É ‘phoda’. Trava o sujeito. Dói praca. Tira a atenção do cara. O pique não é o mesmo. O cabeceio inexiste. Arrancadas, só na base do sacrifício. Vide as últimas atuações pelo Real. Meu, sei não...
Pensando bem, normal. Com Raí foi a mesma coisa.
A zaga.
Lúcio e Juan, de novo. Experiência conta. Entrosamento também. Um pouco de juventude, porém, não faria mal. Sabe aquela coisa de chegar antes? Juan é clássico, mas tem trinta e tantos anos. Lúcio é aquele atabalhoado de sempre, embora geralmente se sobreponha aos adversários – não deve ser fácil enfrentar um gigante que corre pelos cascos, feito um cabrito. Quando entregou a rapadura, teve sorte: contra a Inglaterra, em 2002, Rivaldo fez o gol mais importante da paróquia e Ronaldinho Gaúcho fez, brilhantemente, o gol mais sem querer da paróquia. Terá esgotado o estoque de estripulias?
Reservas deles: Thiago Silva – aquele do Fluminense – e Luisão, do Benfica, um vara-pau que às vezes conserta a zona do agrião, mas cujo grau de confiabilidade está sempre orbitando em torno do razoável. O tal do Miranda parece que dançou. Thiago Silva... Talvez esteja aí a juventude que falta à zaga.
Na esquerda, a grande incógnita. Tenebrosa incógnita. Gilberto – remanescente de 2006 – e Michel Bastos, que eu, na minha santa ignorância, não sei dizer de que caminhão de mudanças ele caiu. Sei lá, põe o Neymar de lateral esquerdo.
Falando sério, a lateral direita é nosso oásis. Maicon é tido como o melhor da Europa, Daniel Alves jogou – e decidiu – muito mais que o titular, no tocante à seleção. Se nenhum céu lhes cair na cabeça, serão a reserva técnica do Brasil na África.
Principalmente se Maicon estiver nos trinques. Isso será fundamental. Ele ocupando com eficiência a posição libera Daniel Alves para ser aquilo para o qual nasceu: ser o coringa do time, jogar onde for preciso. Ter ele em campo é muito bom. Seja na ala direita, na ala esquerda, em qualquer posição do meio. Se precisarmos de um atacante que azucrine a zagueirada rival ou de um zagueiro que alivia, de repente ele também é o cara.
No gol, estamos sossegados. Júlio César faz jus ao legado de Gilmar, Leão. E dá sequência digna a Taffarel, Dida, Marcos.
Agora, os pontos realmente positivos.
Robinho.
Se puder escolher alguém para cujos pés deveria cair a bola aos 47 do segundo, escolheria os pés dele. Qualquer um lá pode fazer um gol, tipo assim, mas não estamos falando de fundamento; estamos falando de potencial. E potencial para driblar a lógica e nos tirar de uma enrascada quem tem é Robinho. Ele é o único do elenco que reúne agilidade, domínio e conclusão, todos em altíssimo grau. E esperteza, petulância, abusadice, irreverência, alegria.
Não basta ser campeão. Tem de ser campeão gostoso. Ou você não viu diferença entre os títulos de 1994 e 2002?
Se o Dunga for tapado que nem o Parreira, eu sugiro que ele comece sempre com Daniel Alves e Robinho no banco. Quebra os adversários. Não há como Daniel Alves e Robinho entrarem em campo e a partida ficar do mesmo jeito. Impossível! Garantia de sucesso? De jeito nenhum. Mas só nós temos isso. A Inglaterra, por exemplo, daria tudo para ter dois jogadores desses no time titular. E nós cogitamos a hipótese de deixá-los na reserva. Ho, ho, ho.
Isso me lembra o técnico da Alemanha num amistoso contra o Brasil em Porto Alegre, no final da década de 80. Com a corda no pescoço, ele perdia por 2 a 0 e mostrava, para as câmeras, um desânimo de dar dó. Estava com a cabeça entre as pernas, mãos no queixo, quando olhou de lado e viu dois brasileiros aquecendo: Renato Gaúcho e Romário. Isso só nós temos, mermão. Quem mais tem isso, rapaz? Renato Gaúcho, na fase, e Romário. No banco.
Temos que contar também com nossa regra no ataque. Que bom se se dessem bem Robinho e Nilmar. Dois caras lisos, habilidosos. Nilmar, ainda por cima, goleador. Com Adriano e Luís Fabiano, nossos doces ogros, nos trinques, seria difícil para algum adversário segurar o rojão. Qualquer combinação que se faça com Adriano, Fabiano, Robinho e Nilmar é pedra 90. Estando todos em forma, num ambiente bom, não tem erro. Isso sim é um Quadrado Mágico, e não aquela vergonha na Alemanha.
Ou devemos esperar por um épico Ronaldinho Gaúcho?
Yo no creo. Copa do Mundo é um torneio curto disputado por 36 times. Seis partidas, até a final. Seleção, na verdade, é um time montado sempre às pressas. O que importa é o momento do grupo inteiro naquela hora. Não é preciso ser um onze fantástico. É possível – sempre acontece – ser campeão com um ou dois cabeças de bagre no time. É elogiável tê-los, por sinal.
A de 70 foi exceção à regra. Não havia cabeça de bagre – pelo contrário, a escalação foi construída para abrigar os melhores, independente de posição, mas a rigor era uma zorra total: do meio pra frente, quatro camisas 10 (Gerson, Tostão, Pelé e Rivelino), um volante de ofício e um centroavante transformado em ponta direita. É mole? Surrealista.
E o cara mais fraquinho – Jairzinho – foi o único cidadão nascido no planeta Terra que fez gols em todos os jogos de uma Copa do Mundo. Ninguém esperava uma campanha tão brilhante. Talvez por isso tenha ocorrido. Pode perceber: quando alguém fala em galáticos, sempre leva tombo. Futebol detesta soberba.
Aí reside a chance de Dunga dar a maior volta por cima que se terá conhecido. De pereba-mor a capitão do tetra e treinador do hexa. Dá filme.
Faça o que fizer, tudo terá valido a pena, a menos que... my God, perder da França de novo não. Tudo, menos isso. Esse seria o extremo do ruim. O do bom? Ganhar da Argentina na final. Ou estará esse néctar reservado para 2014? Cremdeuspai! É um risco altíssimo de novo Maracanazzo.
Então, que seja agora!
Rogério Fischer
Jornalista, palmeirense e cronista do rico cotidiano nacional
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