“O sonho me mostrou um caminho, uma direção, e me lembro de que quando acordei me senti motivado, disposto a promover ações que me levassem à materialização daquele sonho”, relembra o brasileiro Rodrigo Baggio, que em 1995 fundou, no Rio de Janeiro, a primeira Organização Não Governamental de inclusão digital da América Latina, o CDI, Comitê para Democratização da Informática. Quinze anos depois, a ONG tem 803 escolas em 13 países e no mês passado inaugurou a primeira unidade na Inglaterra (veja box).
A ligação de Rodrigo com o mundo digital começou cedo. Quando tinha 12 anos, ele ganhou seu primeiro computador, “um TK82, primeiro a entrar no Brasil”, recorda com entusiasmo. Aprendeu a manusear o equipamento sozinho, ensinou para amigos, professores e não demorou muito para que descobrisse a tecnologia como sua primeira paixão. No mesmo ano começou a atuar como voluntário no trabalho em prol de meninos de rua, na Arquidiocese do Rio de Janeiro. E foi no trabalho social que descobriu sua segunda paixão. Mais tarde, a fusão de ambas definiria sua escolha profissional.
Aos 23 anos, Baggio havia conquistado uma bem-sucedida experiência no setor privado. Atuou em empresas de grande porte, como a Accenture e a IBM, e montou sua própria empresa de consultoria. Ainda assim, não se sentia completo. “Nós tínhamos grandes clientes e isso me mostrava a oportunidade de uma carreira bem interessante como empreendedor, mas eu só me via mais rico, quando o que eu queria era me ver realizado. Só que não sabia como…”
A resposta veio no final de 1993, com o sonho narrado no início desta matéria, que o motivou a dar o primeiro passo para a criação do CDI. No início de 1994, com a campanha “Informática para Todos”, Rodrigo promoveu a arrecadação de computadores para a população do Morro Dona Marta, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Mas, mais do que doar ferramentas, Baggio viu a necessidade de ensinar os jovens a usar a máquina para extrair o melhor que a tecnologia poderia oferecer.
Foi assim que, em junho de 1995, nasceu a primeira unidade do CDI, no Morro dos Macacos, no Rio. “No dia da inauguração tínhamos uma fila de 300 jovens. Onze jornais, sete emissoras de televisão, três rádios e duas revistas. Todos cobriram o evento como uma inovação!”, recorda Baggio com satisfação.
Das favelas do Rio para o mundo
O sonho de Rodrigo Baggio era o de construir apenas uma escola, mas o primeiro CDI Comunidade não parou de crescer. Esses 15 anos de história acabaram gerando espaços semelhantes em diversas comunidades carentes no Brasil, na América Latina e em outros continentes. Além das favelas, o CDI está presente em penitenciárias,
instituições psiquiátricas e de atendimento a portadores de deficiência, aldeias indígenas e ribeirinhas, centros de ressocialização de jovens privados de liberdade, hospitais e empresas.
“Hoje nós temos 803 escolas de informática e cidadania. São vinte estados brasileiros e treze países. São 120 centros apenas no Oriente Médio e acabamos de inaugurar a primeira unidade aqui na Inglaterra. São mais de 1 milhão e 250 mil pessoas formadas em informática e cidadania ao longo desse tempo,” celebra Baggio.
Pelo trabalho, Baggio e o CDI tornaram-se referência mundial na área de inclusão digital. Ele chega a vir à Inglaterra cinco vezes ao ano para atender aos convites para palestras em instituições de renome internacional, como a Oxford University. “Para mim é uma ação muito importante de difusão da causa falar para jovens, estudantes de MBA – Master of Business Administration – para seguirem seus sonhos, mas lutar para transformar nossa realidade, porque só assim vamos conseguir um mundo melhor,” diz.
Com mais de 60 prêmios internacionais, o CDI é reconhecido hoje por organizações do porte da ONU (Organização das Nações Unidas), Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e Skoll Foundation.
Diretor-executivo do comitê, Rodrigo já foi apontado como um dos 100 “Young Global Leaders” pelo Fórum Econômico Mundial; como um dos 50 líderes latino-americanos que farão diferença no terceiro milênio, pela Time Magazine; e como uma das 10 personalidades no mundo escolhidas como “Principal Voices” no campo do desenvolvimento econômico, em 2006, pela CNN, Time e Fortune.
“É como dizia Raul Seixas em uma de suas canções: um sonho que se sonha sozinho é apenas um sonho que se sonha sozinho. Um sonho que se sonha junto vira realidade,” compara Rodrigo. “O CDI é um sonho que se sonhou junto, que virou realidade e que quer crescer, impactar e mobilizar mais pessoas para difundir a causa da inclusão digital sutentável,” complementa.