Sexta-Feira, 18 de Maio de 2012







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Aí tem luz, Fred!
Luciano Vidigal
Abril 2010
Ilustração: Edvaldo Jacinto

Na escuridão do meu quarto começo a escrever essa crônica em homenagem ao companheiro de luta. Olho pela janela e enxergo a confirmação da teoria de que as luzes da favela formam uma árvore de natal na noite carioca. Fred foi um dos fundadores e iluminador do grupo teatral Nós do Morro. Foi um guerreiro na causa pela transformação social e humana através da arte.
Aprendemos com ele, desde criança, que poderíamos receber luz através de uma lata velha e uma simples vela. Confesso que não queria escrever esta crônica no tempo passado mas, agora, tenho que me concentrar e aceitar a morte de um amigo. No enterro, percebo que o sagrado faz parte. Não só pelas toneladas de lágrimas, como pelos sons fortes das pisadas que prosperaram no processo do sepultamento. De fato, o sagrado e o silêncio caminham lado a lado.
O Sol ilumina todo o cemitério São João Batista. Os coveiros trocam olhares enquanto flores soltas são jogadas para o ar. Quando era criança, nas aulas de iluminação, aprendi palavras soltas que até hoje estão presentes no cotidiano da minha imaginação: luz, foco, contra luz, sombra, holofotes, ribalta, refletores e black out.
Quando terminávamos as aulas, o professor Fred fazia questão de afirmar que era importante aplaudir e repetir a frase do poeta: “O aplauso é o alimento do artista.”
O silêncio do enterro e do sepultamento é invadido por aplausos.
Careca, o companheiro do grupo, fala pausadamente: “Aí tem luz, Fred!”. Em seguida, o coro responde com gritos de “Valeu Fred”, “Valeu Fred”.
Olho para o lado, sob um calor de aproximadamente 45 graus, e percebo que tem três garotos negros soltando pipa em cima de uma sepultura.

Luciano Vidigal é ator e diretor de cinema


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Mai /12
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