O Brasil fechou 2011 desbancando o Reino Unido da sexta posição entre as maiores economias do mundo. O levantamento foi feito pelo Centro para Pesquisa Econômica e de Negócios (Centre for Economics and Business Research - CEBR) e colocou o Brasil atrás apenas de Estados Unidos, China, Japão, Alemanha e França. O Reino Unido caiu para a sétima posição. O crescimento da economia brasileira fez com o que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, projetasse superar a França antes de 2015, assumindo a quinta posição entre as maiores potências econômicas mundiais.
"Nosso ritmo de crescimento será o dobro dos países europeus. Portanto, é inexorável que nós passemos a França e, quem sabe, talvez a Alemanha, se ela não tiver um desempenho melhor", disse o ministro no final de dezembro, apoiado nos números da crise financeira que assola o continente europeu. Para Mantega, o crescimento econômico na Europa nos próximos anos deve ser de cerca de 2% e, no Brasil, de 4% a 4,5%, em média.
O chefe executivo da CEBR, Douglas McWilliams, avaliou como natural a evolução do Brasil no panorama econômico mundial. "Eu acho que isto é parte da grande mudança econômica, onde não apenas estamos vendo uma mudança do Ocidente para o Oriente, mas também estamos vendo que países que produzem commodities vitais - comida e energia, por exemplo - estão se dando muito bem, e estão gradualmente subindo na 'tabela do campeonato econômico'", afirmou em entrevista à BBC.
Entre as razões para a ascensão do Brasil, segundo o estudo da CEBR, estão a crise de 2008, que dissolveu o crescimento dos países europeus em um caldeirão de dívidas, e as exportações de produtos primários, como minérios, soja e petróleo, para a China e para o Sudeste Asiático. O estudo aponta, porém, que a Índia e a Rússia devem superar o Brasil nos próximos dez anos.
Na esteira do bom momento econômico, a primeira semana de 2012 comprovou que o Brasil mantém o posto de queridinho dos investidores globais. Nos cinco primeiros dias úteis do ano, o Tesouro Nacional e duas empresas privadas captaram juntos US$ 2,6 bilhões no mercado externo. Se fosse mantido pelas outras 51 semanas do ano, seria um ritmo três vezes superior ao de 2011, quando as emissões atingiram US$ 38,5 bilhões.
Repercussão
A imprensa britânica repercutiu a queda do Reino Unido no ranking da economia, sem deixar de citar as mazelas brasileiras. Segundo o tabloide britânico "Daily Mail", "o Brasil, cuja imagem está mais frequentemente associada ao futebol e às favelas sujas e pobres, está se tornando rapidamente uma das locomotivas da economia global com seus vastos estoques de recursos naturais e classe média em ascensão".
Um artigo que acompanha a reportagem do Daily Mail, ilustrado com a foto de uma mulher fantasiada sambando no Carnaval, lembra que o Império Britânico esteve por trás da construção de boa parte da infraestrutura da América Latina e que, em vez de ver o declínio em relação ao Brasil como um baque ao prestígio britânico, a mudança deve ser vista como uma oportunidade de restabelecer laços históricos. "O Brasil não deve ser considerado um competidor por hegemonia global, mas um vasto mercado para ser explorado", conclui o artigo intitulado "Esqueça a União Europeia... aqui é onde o futuro realmente está".
O jornal "The Guardian" atribuiu a perda de posição à crise bancária de 2008 e à crise econômica que persiste em contraste com o boom vivido no Brasil na rabeira das exportações para a China. E não esqueceu da velha rivalidade com a França, que serviria de consolo aos britânicos. "A única compensação (...) é que a França vai cair em velocidade maior". De acordo com o jornal, o presidente francês, Nicolas Sarkozy ainda se gaba da quinta posição da economia francesa, mas, até 2020, ela deve cair para a nona posição, atrás da Grã-Bretanha.
Contrapontos
Se a importância do Brasil no cenário mundial é inquestionável, assim como o crescimento de nossa economia, alguns analistas ressaltaram alguns contrapontos à essa evolução econômica. Para Vinicius Mota, da Folha de Sao Paulo, os preços em alta e a valorização do real em relação ao dólar contribuíram mais para crescimento do que aumento da produção. "O Brasil vai se tornar a sexta maior economia mundial por três motivos, em ordem de importância: inflação, alta da produção doméstica e valorização do real. Não fossem a inflação mais alta e os ganhos do real diante do dólar, o Brasil iria demorar muito mais tempo para ultrapassar a economia britânica", pondera.
Em artigo publicado pelo Jornal do Brasil, Reginaldo Gonçalves, coordenador do curso de Ciências Contábeis da Faculdade Santa Marcelina, no Rio de Janeiro, diz que "alcançar a sexta colocação no ranking da economia mundial não representa melhor qualidade da vida para os brasileiros. A empregabilidade melhorou, mas a distribuição de renda ainda é um dos principais entraves que precisará ser mais bem dimensionado."
Gonçalves defende que para melhorar a qualidade de vida com melhor distribuição de renda, "não basta efetuar a distribuição do Bolsa Família ou beneficiar uns poucos brasileiros com o programa Minha Casa, Minha Vida. É preciso capacitá-los para que consigam uma renda superior e possam pensar no futuro em consumir de maneira responsável e poupar."
A precária qualidade de vida da maior parte da população brasileira pode ser medida pela 84ª posição ocupada pelo país no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), num ranking de 187 países avaliados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). O IDH combina dados da prosperidade econômica com os níveis de educação e expectativa de vida.
Por esses e outros fatores que, mesmo celebrando o sexto lugar entre as maiores economias do mundo, o ministro da Fazenda reconheceu que os brasileiros podem demorar entre 10 e 20 anos para ter um padrão de vida semelhante ao europeu. "Isso significa que vamos ter que continuar crescendo mais do que esses países, aumentar o emprego e a renda da população. Temos um grande desafio pela frente", disse Mantega.
Mais do que um grande desafio, um longo caminho a trilhar.
*Com informações da BBC Brasil, Globo.com, Portal IG, UOL, Folha de São Paulo, Estadão e Jornal do Brasil