Sexta-Feira, 18 de Maio de 2012







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São Paulo: uma cidade de sonhos e preços altos
Texto: Alê Jones
Ilustração: Edvaldo Jacinto
Janeiro 2012
Esperamos um ano e meio pelo tão esperado momento: retornar ao Brasil, no meu caso, São Paulo. Fomos rever parentes e amigos, celebrar o primeiro aniversário da nossa filha Isabella e aproveitar um pouquinho do sol. Emoção ao fazer as malas, comprar as lembranças, passar pelo check in e embarcar. Viagem sem turbulência, a bebê dormindo praticamente o trajeto todo e finalmente chegamos ao destino. Tudo perfeito, não fosse o desembarque no aeroporto de Guarulhos, um verdadeiro festival de "guerra de malas", free shop e grocerias. O Brasil tem uma lei brilhante para cadeirantes, grávidas e mães com carrinhos, mas que não se aplica num apertadíssimo aeroporto, onde acontecem 4/5 desembarques na mesma hora e onde todos os passageiros desembocam numa mal sinalizada burocracia que é a verificação de passaportes.
Já começo a fazer as mesmas perguntas: a economia está em crescimento, mas a estrutura do país continua igual? Por que no Brasil é mais difícil ver as pessoas respeitando umas as outras? Meu pai estava esperando no desembarque e depois dos abraços, senti o calor brasileiro que tomou conta do meu rosto. Naquele momento já estava sonhando em entrar no carro e ligar o ar condicionado ao máximo.
Após comer o banquete delicioso de comidas brasileiras preparada pela minha mãe, resolvemos colocar nossa filha no carrinho e passear um pouco. Ai que saudades das ruas de Londres! Minha filha, que deveria dormir, ficou acordada, pulando de um lado para o outro. No passeio foi impressionante ver quantos novos prédios surgiram e outros que estão em fase de construção. Cada canto está sendo aproveitado, barulho de britadeiras, homens trabalhando, buzinas, tudo junto misturado na confusão do trânsito que é São Paulo.
A poluição dói nos olhos e afeta a respiração. Já havia esquecido esse cheiro diferente que fica no ar e minha rinite, que estava quieta por tantos meses, resolveu atacar. Apesar disso, amo muito minha cidade, principalmente os pequenos detalhes: padaria da esquina que tem um delicioso bauru com café com leite, churrasquinho Mimi acompanhado de uma cervejinha bem gelada, pé e mão por R$ 20,00, pastel de feira, curtir o calor de novembro, prainha num fim de semana, bater perna na Avenida Paulista e em shopping, olhar vitrines e sair para jantar com amigos e família.
Passeamos bastante, dentro do carro, é claro. Os paulistanos, cada vez mais assustados com os roubos, procuram residências em condomínios fechados fora de São Paulo, onde, para você entrar, precisa aguardar pelo menos 10 minutos após entregar documentos e informar onde pretende ir. Fomos de condomínio em condomínio, muitos deles com patrulha interna. A impressão que se tem é que você nunca sai do carro ou de casa. Amo a liberdade que tenho em Londres, mesmo que não tenha carro. Saio para pessear com minha filha todos os dias, sem medo de ser feliz.

Sustos pelo caminho


Durante a estada no Brasil tivemos alguns sustos, mas, felizmente, não estou falando de assalto. Sabemos que a libra desvalorizou, que a economia britânica está em recessão, mas salvamos um dinheirinho que economizamos meses para aproveitar nossas férias em São Paulo. Infelizmente, muito do que gostaríamos de fazer ficou nos planos. Fiquei assustada com os preços praticados pelas lojas, supermercados e restaurantes em geral.
O que parecia ser uma simples compra de supermercado saía aproximadamente R$ 100,00, em média. Um jantar com amigos não custa menos de R$ 50,00 por pessoa. Uma daquelas camisetas básicas que achamos na Primark, e por sinal adoramos, custa em torno de R$ 40,00. E por aí vai... E o paulistano parece não ligar. Ou talvez o padrão de vida de todos esteja melhor.
Notei que vários amigos têm casa própria (hipoteca) e carro na garagem (financiamento). A riqueza aparece em todos os níveis e embora a gente saiba da grande desigualdade social e econômica que existe no Brasil, hoje gasta-se por uma linha de internet e TV a cabo quase R$ 200,00 por mês. Os preços das operadoras de telefones celulares também extrapolam em muito dos pacotes pré-pago ou pós-pago que encontramos na Inglaterra.
Os aluguéis estão em patamares nunca antes vistos. Um apê de dois dormitórios próximo a Rua Santo Amaro, na região da Vila Olímpia (Zona Sul), custa em torno de R$ 1.700,00 por mês. A Fórmula 1, que aconteceu em novembro em São Paulo e atrai muitos turistas dispostos a gastar, já não é mais tão atrativa assim. Conforme reportagem publicada na Folha de São Paulo, através do levantamento de 2011, São Paulo aparece como a décima cidade mais cara para os estrangeiros. Em 2010, era a 21ª. Dentre as cidades que recebem etapas da F-1, só Cingapura vem antes na lista, a oitava mais cara. Londres vem bem atrás, na 18ª posição.
Fomos recebidos tão bem por minha família e amigos, com churrascos, festas, comemorações e nem percebemos que o tempo passou tão rápido. Último dia de viagem e cai aquele temporal, justamente quando resolvemos dar uma caminhada. Como os táxis não paravam, liguei para meu pai e ele foi nos "resgatar". OK, havia esquecido que São Paulo ainda é a capital das chuvas.
Na chegada a Londres, a imigração estava em greve. E já comecei a lembrar dos problemas: recessão, desemprego... A única vantagem é que o desembarque foi super tranquilo e num piscar de olhos estávamos em casa. Conversando com o meu marido, que ama o Brasil tanto quanto eu, concluímos: pretendemos visitar o país sempre, para passear, rever a família e matar as saudades. Mas mesmo sabendo que retornar à terrinha é um sonho para a maioria dos brasileiros que vivem na Inglaterra, para nós, esse sonho está cada vez mais distante, infelizmente.
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